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A corrupção descontada no contracheque

O GLOBO / OPINIÃO, 27.02.2024, Por Gigi Reis (*)

“Estamos pagando a conta dos rombos causados em nossos fundos, por meio de descontos que podem chegar a absurdos 30%”.

Um dos aspectos mais injustos da corrupção é que suas vítimas, além de terem direitos violados, são invisibilizadas na maioria dos casos.

Os aposentados de Caixa, Petrobras, Correios e outras estatais são vítimas diretas — identificadas com nome e sobrenome — de enormes e sucessivos esquemas de corrupção.

Os fundos de pensão das estatais detêm patrimônio de quase R$ 1 trilhão.

Não é, portanto, coincidência terem estado no centro do mensalão e do petrolão.

Ali está a poupança de toda a vida de centenas de milhares de bancários, petroleiros, carteiros e outros aposentados e futuros aposentados. Cada qual com sua história e seu sentimento de indignação pela injustiça de ter de pagar a conta da corrupção.

Estamos pagando, há anos, a conta dos rombos causados pela corrupção em nossos fundos, por meio de descontos mensais que podem chegar a absurdos 30%.

E a afronta não para aí. Somos cobrados no Imposto de Renda sobre os valores que nos são debitados.

Essa injustiça parece se tornar ainda mais invisível cada vez que somos bombardeados com discursos negacionistas, afirmando que a corrupção nunca existiu.

Na década passada, a Operação Greenfield trouxe um lampejo de esperança de justiça, quando investigou e obteve confissões, do grupo J&F, de esquemas de corrupção em série. O grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, proprietário da JBS, assinou acordo de leniência com o MPF com multa de R$ 10,3 bilhões, dos quais R$ 4 bilhões seriam destinados a cobrir parte do rombo que causaram no Funcef, fundo de pensão da Caixa, e no Petros, da Petrobras.

Mas a expectativa por reparação vai se esvaindo, à medida que assistimos, atordoados, ao desmantelamento da Greenfield e à repactuação sigilosa e imoral das delações premiadas dos irmãos Batista, ambas conduzidas pelo ex-procurador-geral da República Augusto Aras.

Alcançado o objetivo de impunidade dos donos, agora assistimos aos malabarismos da J&F, mobilizando exércitos de advogados e políticos para se livrar de sua responsabilidade nessa farra da corrupção. Infelizmente para os trabalhadores, especialmente os idosos, vítimas mais vulneráveis desse imbróglio, o grupo está avançando rapidamente rumo ao livramento.

Decisão recente do ministro Dias Toffoli, do STF, suspendeu o pagamento da multa bilionária da J&F, acatando o argumento dos corruptos de que confessaram sob tortura. Tortura? Tortura é ser obrigado a pagar injustamente a conta da corrupção.

Com sacrifício, mais de cem idosos, aposentados da Caixa, nos deslocamos de diversas partes do país — pagando do próprio bolso — para manifestarmos nossa indignação e sentimento de abandono em frente à Procuradoria-Geral da República.

Além disso, organizamos uma petição, assinada por milhares de pensionistas, e a fizemos chegar ao atual procurador-geral, Paulo Gonet, traduzindo nosso clamor por justiça.

Para finalizar com uma nota de ainda maior desalento, uma das ações que avançam no STF para anular todas as multas de acordos de leniência — inclusive a da J&F — foi proposta pelo PSOL, PCdoB e Cidadania. Três partidos que dizem defender os trabalhadores favorecendo interesses de empresas e bilionários corruptos, sem jamais terem feito qualquer consulta ou consideração sobre a situação dos vitimizados.

Ontem, ocorreu no STF audiência de conciliação sobre o caso, para a qual foram convidados os órgãos públicos e as empresas.

As vítimas foram ignoradas.

Nós trabalhamos toda a vida e honramos as empresas com nossa força laboral, dedicação e saúde.

A terceira idade clama e precisa que se faça justiça. Para tanto, antes de tudo, tem de ser vista e reconhecida como a vítima que é dessa monstruosa engrenagem que nos viola e nos silencia.

(*) Gigi Reis, administradora, é aposentada da Caixa e ativista em defesa dos participantes dos fundos de pensão.

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