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Bolsa ainda receberá bilhões de reais de fundos de pensão, diz consultoria

Setor tem muito dinheiro para investir e terá que aplicar mais em ações, o que ajuda a Bolsa de Valores a se valorizar

A chegada de novos investidores é um dos principais motores que impulsionaram as fortes valorizações da Bolsa de Valores nos últimos anos. São pequenos investidores, fundos de investimentos, bancos e empresas que vêm trocando aos poucos suas aplicações em renda fixa por outras opções mais arrojadas, em busca dos retornos que aplicações conservadores como títulos públicos já não dão mais.

Há, entretanto, um último grupo dentre os investidores domésticos que ainda mal começou esse caminho: a trilionária indústria dos fundos de pensão. A boa notícia é que, em algum momento muito próximo, isso vai acontecer, e será uma injeção cavalar de dinheiro no mercado de ações – o que, em última instância, é o que faz com que ele se valorize.

“Estamos falando de bilhões e bilhões de reais que eles têm para levar para a Bolsa de Valores, e é um fluxo que será inevitável”, diz Guilherme Benites, sócio da Aditus, uma das principais consultorias de investimentos para fundos de pensão do país.

Os fundos de pensão são os planos de previdência privada fornecidos por empresas a seus empregados. Eles são os responsáveis pela aposentadoria complementar de 3,5 milhões de brasileiros e gerenciam uma fortuna que equivale a 13% do PIB. Seus investimentos, somados, chegaram a 926 bilhões de reais no ano passado, sendo 19% em ações (170 bilhões de reais), de acordo com a Abrapp, a associação do setor.

Essa proporção praticamente não se mexe desde 2015 e, em 2013, chegou inclusive a ser maior, de 30%, mesmo que os juros, à época, fossem mais polpudos do que hoje (em 2013, a Selic subiu a 10% ao ano; em 2020, caiu a 4,25%). Para se ter uma ideia, se a fatia do dinheiro desses fundos em renda variável subisse, hoje, dos 19% atuais para os 30% do passado, já seriam 100 bilhões de reais a mais no mercado de ações. É mais que o dobro do que os 44,5 bilhões de reais que os estrangeiros levaram embora da Bolsa brasileira em 2019.

Em conversa com o site de EXAME, Benites, da Aditus, explicou o porquê dessa demora no rebalanceamento da carteira do setor e, ao mesmo tempo, porque acredita que ela seja inevitável. Veja os principais trechos:

Os fundos de pensão sempre foram tradicionais investidores de renda fixa, mas, com a queda dos juros às mínimas históricas, terão que tomar mais risco para manter a rentabilidade e garantir o pagamento das aposentadorias de suas beneficiários. Essa migração para a renda variável já está acontecendo?

É, de fato, uma questão que tem sido muito debatida no setor e é um fluxo que será inevitável. Afinal, qual alternativa sobrou? Com juros a 4,25%, mal dá mais para cobrir a inflação. É uma migração que está ainda acontecendo de maneira muito lenta, os fundos de pensão ainda têm muito menos do que poderiam em renda variável, mas ela vai acontecer. Mas não dá mais para falar que não quer ter renda variável. E estamos falando, aí, de bilhões e bilhões de reais que essas entidades ainda irão levar para a Bolsa de Valores.

De quanto é a participação das ações nos investimentos dos fundos de pensão, e de quanto poderia ser?

No total do setor, são hoje cerca de 20% em renda variável, de acordo com os dados da Abrapp. Isso já foi próximo de 30% no passado. Mas esses números acabam sendo muito distorcidos por conta dos grandes fundos. A Previ, por exemplo [fundo dos funcionários do Banco do Brasil], que é o maior, tem sozinha um quinto do mercado, e algo como 50% do seu patrimônio está em renda variável. Só que ela é um ponto fora da curva. Entre os fundos menores, que são a grande maioria, a participação da renda variável é de 9%. Com os novos direcionamentos para as políticas de investimentos em 2020, isso pode subir para 13% neste ano. Só entre os clientes que nós representamos, que são 120 fundos com 250 bilhões de reais em ativos, esse aumento de 4 pontos percentuais seria 10 bilhões de reais a mais para a Bolsa. E é só um pedaço do mercado.

Por que a participação da renda variável na carteira deles é ainda tão pequena na renda variável e por que a demora para que isso comece a mudar, mesmo com os juros em queda há mais de dois anos?

Um fator importante é que boa parte da carteira desses fundos ainda é formada por títulos de renda fixa mais antigos, de quando os juros estavam altos, e com vencimentos longos. Há títulos públicos ali pagando 6% de juros além da inflação. Hoje, os mesmos títulos dão 3% de juros. Conforme esses títulos vençam, e conforme os fundos precisem fazer novos aportes, será necessário ir para ativos mais arriscados e que ofereçam melhores possibilidades de ganhos.

Por sua natureza, os fundos de pensão têm um perfil de longuíssimo prazo para os investimentos, o que, em muitos aspectos, pode servir de referência para o pequeno investidor que quer investir pensando na aposentadoria ou no longo prazo. O que um fundo de pensão considera mais importante na hora de escolher uma ação?

Quando um fundo de pensão investe em Bolsa, ele está pensando em um horizonte de dois a três anos. E, diferentemente do que a maioria das pessoas fazem, não existe esse negócio de ficar procurando a ação que pode se multiplicar por cinco. É um setor que nem dá atenção para uma conversa dessas, esquece. É também um investimento não se mexe muito, que tem operação todos os dias ou fica tentando acertar o pico do preço para vender. Olha-se muito mais para os fundamentos da empresa, a liquidez e, sobretudo, a estabilidade. No fim das contas, aquilo que pode triplicar em dois anos é a mesma coisa que, em dois anos, pode valer zero.

Juliana Elias
Publicado em 14 fev 2020 – REVISTA EXAME

Os juros e os Fundos de Pensão. O Mundo da taxa de desconto de 6% morreu – e o país terá de se curvar a isso

Fabio Giambiagi – O Estado de S.Paulo
05 de fevereiro de 2020 | 03h00

A educação previdenciária é um elemento importante para o bem-estar da fração da população com um nível de renda maior que o do teto do INSS, atualmente de R$ 6.101. A questão justifica a insistência no tratamento do tema da previdência, objeto, com este, de sete dos 12 artigos que escrevi para o Estadão desde que me tornei seu articulista regular há um ano.

Entendo que o papel que um economista tem ao escrever neste espaço é o de compartilhar suas experiências para colaborar no entendimento das grandes questões – mas é também o de tentar ajudar os leitores a que eles mesmos tenham condições de se preparar melhor para enfrentar o dia a dia de um país complicado como o nosso. E, ao mesmo tempo, o desafio é fazer isso sabendo se comunicar em linguagem simples, sem as complicações de um artigo econômico.

Durante 20 anos, entre 1974 e o Plano Real, de 1994, o Brasil viveu a aberração da alta inflação. Pergunte-se a um suíço se ele acha normal viver com uma inflação de 40% ou 50% ao ano e ele julgará essa uma pergunta de doido – e, lembremos, nossa inflação em 1993 foi de mais de 32%… ao mês!

Ainda que com altos e baixos e uma inflação que só agora parece aproximar-se da dos países com a economia estabilizada, é evidente que a trajetória dos preços no Brasil mudou em 1994. O fato, porém, é que o País substituiu uma anomalia por outra.Embora cada decisão acerca dos juros tenha tido a sua justificativa nas condições da época, salta aos olhos que uma taxa de juros real Selic (deflator: IPCA) média de 9% no conjunto dos 24 anos 1995-2018 reflete uma patologia nacional. Torçamos para que os juros baixos dos últimos meses prenunciem uma nova era.

Nesse contexto, o País acostumou-se a vários vícios. Um deles foi o do baixo
nível de contribuição que os fundos de pensão cobram dos participantes com vista à sua aposentadoria futura. Nos países desenvolvidos, em geral, esses fundos são um componente importante da riqueza nacional e fonte relevante do “funding” de muitos projetos de investimento. No Brasil, eles ocupam uma posição intermediária no ranking internacional de participação relativa na economia. Não temos os níveis de capitalização que se observam nos Estados Unidos ou em alguns países da Europa, mas estamos na frente da maioria das economias emergentes no que se refere à relação entre o capital dos fundos de pensão e o produto interno bruto (PIB). Daí a importância de que sua evolução seja acompanhada com cuidado.

Os exemplos a serem explicados realçam a relevância da taxa de juros. Eles
foram construídos supondo ausência de capital inicial, de inflação, de taxa de administração e tributação e arredondando os valores para inteiros. Eles servem para mostrar a dimensão do vício que o País adquiriu por conta de décadas de juros elevados. Imaginemos um caso simples, de um cidadão que comece a contribuir para um fundo de pensão aos 40 anos de idade, aposentando-se aos 60 e fazendo saques a partir de então até os 80 anos, numa situação de juros nulos. A conta é trivial, nesse caso, pois sendo o período de contribuição (20 anos) igual ao de saques, o valor da renda complementar é o mesmo que o da contribuição. Se a renda mensal almejada for de R$ 1.000, essa terá de ser a contribuição mensal. Entretanto, se a taxa de juros real anual for de 6%, a contribuição cairá para apenas R$ 312. Se depois a taxa real anual cair para um nível entre 2% e 4% reais, a contribuição mensal terá de aumentar para algo entre R$ 456 e R$ 673.

A exigência contributiva guarda relação direta com a extensão do período de saque e inversa com o período contributivo e com os juros. Num caso plausível, alguém que pretende ter uma renda complementar de R$ 1.000 a partir de mais tarde, aos 65 anos, tendo começado a contribuir também aos 40 e com a pretensão de fazer saques durante 20 anos, precisa ter a disciplina de contribuir mensalmente com R$ 209 (menor que a do caso acima explicado) quando a taxa de juros real anual é de 6%. Porém a contribuição aumenta para R$ 326 (56% superior) se os juros caem para 4%.

Os números nos remetem ao que aconteceu com os juros de longo prazo. Há 15 anos, em 2005, a taxa média real das NTN-Bs de 30 anos era de 9%. Atualmente, ela tem se situado em torno de 3,5%, aproximadamente. Assim sendo, de duas, uma, então: 1) mantidas as mesmas contribuições, os futuros aposentados terão uma renda complementar menor; ou 2) para conservar a renda almejada as contribuições terão de aumentar.

A experiência indica que, da mesma forma que os governos têm dificuldades de conseguir que a população apoie mudanças nas condições de aposentadoria, os gestores de fundos previdenciários não gostam de explicar aos participantes que com juros menores terão de contribuir mais para obter a mesma renda futura. O fato, porém, é que o mundo da taxa de desconto de 6% morreu – e o País terá de se curvar a isso.

Infelizmente, não há mágica no mundo rígido da matemática financeira.